Com escreveu Extramiana sobre a 1ª Guerra carlista no País Basco:
"pode-se compreender que o povo dos campos, que se rebela em nome da Religiom e da Legitimidade, se insubordine também de maneira mais ou menos consciente, contra a modificaçom dos contratos agrários, contra a liquidaçom dos bens comunais e contra a extensom de umha agricultura de mercado que, ao princípio e para um grande número, aumenta a exploraçom dos comerciantes sobre os rurais e arruína o artesanato das aldeias". (18)
Fernández de Pinedo sublinha como motivaçom para a Guerra Carlista no País Basco o problema das alfándegas:
"Situar as alfándegas na costa era elevar o preço dos produtos que consumia umha fracçom nada desprezível dos vascongados, precismente quando o preço dos graos que comercializam estava a baixar".
E fai muita ênfase nas conseqüências económicas e políticas das desamortizaçons:
"Quando se começárom a pôr terras à venda, umha parte dos ricos rurais –velhos notários e burgueses rurais ou especuladores como os moinheiros— comprárom-nas. Com certeza que entre os adquirentes nom se achavam os pequenos morgados carregados de dívidas. Desamortizar bens do comum equivalia a subtrai-las a certos usos comunais, sobretudo o corte de lenha e o adubo. O s proprietários de quintas que nom comprárom nom tivérom já direito ao que antes era legal e gratuito... A privaçom de adubos comunais tinha que repercutir nos rendimentos e, portanto, prejudicou a maioria dos camponeses, e também umha parte dos morgados que possuíam casarios e nom dérom participado na compra... A queda dos preços agudizou as contradiçons que existiam de havia já longo tempo. Manter as receitas incrementando a produçom requeria mais adubos, quer para vendê-los, quer para atingir melhores colheitas. Os que adquiriram bens comunais desejárom tirar destes o máximo proveito, com o qual batêrom com os que nom puderam comprá-los, a maioria. Mais um motivo em contra do liberalismo. As dificuldades do colono cuja exploraçom se via privada dos usos comunais repercutiam na renda do solo e, portanto, nas receitas dos pequenos morgados... O clero, que já se vira contestado no plano ideológico no século das luzes, viu-se agora duramente prejudicado nos seus bens e nas suas rendas. Os franceses saqueárom e destruírom igrejas e conventos. Os morgados e instituiçons religiosas que viviam de censos, juros e rendas da terra viram aqueles roídos pola suba dos preços do XVIII e estas bruscamente minguadas a partir de 1815". (19)
Beltza (pseudónimo de Emílio López Adán) explica num revelador e clarificador livro (Del carlismo al nacionalismo burgués. Mediación y alienación, Editorial Txertoa, San Sebastián, 1978) que os factores exógenos vinhérom a agravar virulentamente as tensons agrárias bascas que foram crescendo durante o século XVIII. E distingue dous grupos de factores exógenos: o das conseqüências da guerra contra a Convençom e das napoleónicas, a inflaçom de fins do XVII e a posterior defaçom por um lado e, polo outro, o das conseqüências da ofensiva jurídica da Coroa espanhola durante todo o século XIX contra os bens comunais e de próprios, as conseqüências da política de Desamortizaçom. Beltza adverte que:
"O que caracteriza o século XIX nom é a mera continuidade deste tipo de conflitos, mas a intervençom dos factores exteriores bélicos e legislativos a que temos feito referência. O processo de privatizaçom acelera-se e a luita de classes agudiza-se, tomando, ante o papel principal, das causas externas, um carácter de insurreiçom quase global das classes populares, vencidas afinal por exércitos estrangeiros.
Globalmente, as transformaçons agrárias durante o século XIX fôrom enormes. De umha parte, terminou-se impondo o conceito burguês da propriedade absoluta e privada; de outra, afirmou-se o predomínio da agricultura sobre a gadaria e a exploraçom florestal; por último, a causa da inviabilidade crescente das velhas exploraçons, iniciou-se a despovoaçom dos campos... Por tudo isso, e dada a estrutura social e produtiva da altura, a principal contradiçom que atravessa a sociedade basca do século XIX é a que di respeito às posiçons dos diversos grupos para essa redistribuiçom e reconceiçom da produtividade e a propriedade agrárias. Esta contradiçom principal nom nega outras, e assim os motivos dos grandes comerciantes e de ferreteiros para pedirem o traslados das alfándegas e serem liberais som operativos numha esfera distinta à agrária; no entanto, a sua incidência sobre os conflitos de classe vai ser secundária.
No que atinge à questom da terra, liberais serám quem fam fortuna mercê da crise, os capazes de comprares e investirem: fundamentalmente, pois, grandes nobres e comerciantes de dinheiro. Carlistas, polo contrário, os perdedores; quer quem se viam espoliados por serem camponeses sem fundos, quer que viviam em estreita relaçom de comunidade social e dependência económica com os cultivadores, como a pequena nobreza local e os artesaos". (20)
Salvo a discrepáncia sobre o papel dos artesaos, Fernández de Pinedo e Beltza coincidem sobre a composiçom de classes do carlismo basco na primeira guerra. Segundo Fernández de Pinedo, "Entre os carlistas, a base estava composta por camponeses e os dirigentes polos pequenos e medianos morgados". E o baixo clero, sobretudo do rural, e nomeadamente os frades. "Sem descartar que o clero jogasse um papel –acrescenta Fernández de Pinedo— a explicaçom do carlismo está no apoio maciço dos camponeses e de parte dos notáveis rurais vascongados. Sem estes, sem a sua experiência militar, sem a sua capacidade de mando, a insurreiçom nom teria passado de umha machinada. Sem a colaboraçom da massa, o descontento dos morgados nom teria passado de umha revolta de palácio". (21)
Beltza tem explicado luminosamente no seu livro o peculiar papel desses "jauntxos", desses notáveis locais, na primeira guerra carlista deve-se a que som a um tempo o que Robert K. Merton distinguiu como influentes locais e influentes cosmopolitas:
"aceitado como cabeça natural da comunidade camponesa e colocado numha postura intermédia que o fazia aparecer como capaz de compreender, explicar e inclusive influir sobre a sociedade abrangente, era natural que o notável figesse o papel mediador entre esta e a sociedade camponesa... No nosso País esta dupla relaçom de dependência (quer dizer, de exploraçom e de protecçom a um tempo) entre nobreza local e camponeses, chega provavelmente até o século XIX em estado bastante operativo... Daí a naturalidade com que a massa carlista aceita a direcçom da guerra polos notáveis".
Beltza fai a seguir umha excepcional descriçom de como esses "jauntxos" convertem o seus papel de mediadores em papel de alienadores. Descriçom excepcional porque ilumina nom só a saída da Primeira Guerra Carlista mas o jogo que 60, 100,150 anos depois vai fazer o PNB. Di Beltza:
"Porém, embora o notável local tenha amplas relaçons sociais e culturais com a comunidade rural, a sua autêntica situaçom de classe e com ela a base do seu comportamento político, acha-se na sua pertença às classes exploradoras. Serám, antes do que membros da sociedade camponesa, nobres ou burgueses, ou, nalguns estados actuais, funcionários. Por isso, tenderám sempre para levar a revolta que condicionam para um compromisso dentro das classes dominantes; a luita camponesa será umha alavanca para regatear um pedaço mais importante dentro do reparto do poder político ou das vantagens económicas. Quando a situaçom chegar a um ponto onde o compromisso favorável for possível, atraiçoar as massas será o elemento decisivo para atingir essa postura favorável dentro do novo equilíbrio entre os exploradores". (22)
O Convénio de Vergara que encerra a guerra carlista é exemplo deste comportamento, de resto bem conhecido nas guerras camponesas europeias.
É assim como os jautxos, apesar de terem perdido a guerra, nom som desalojados como classe dominante. Extramiana vincou que:
"De 1833 a 1868 a classe privilegiada basca realiza e consolida a sua uniom. O forismo de 1833 permitiu a reconciliaçom das camadas da aristocracia que se enfrentárom durante a guerra. Um novo passo para essa uniom dá-se na época isabelina com um maior convívio entre proprietários latifundiários e sectores burgueses". ((23))
11. 1876: um exército estrangeiro (espanhol) vence e destrui o Estado foral basco.